ROLETAS
Há muitos anos, políticos corruptos tentaram ganhar mais dinheiro do
que já tinham ganho em Angra I e II, construindo centrais nucleares em
Peruibe, no litoral sul de São Paulo (coisa que estão conseguindo agora
construindo, safadamente, Angra III).
Na época mandei uma reflexão a respeito que foi publicada no Jornal O
Estado de São Paulo, um periódico que ainda tinha alguma credibilidade.
Infelizmente não achei o recorte portanto estou reconstruindo o
raciocínio já feito na época (antes de Tchernobyl!) usando mais
recursos, graças à internet.
Imagine que você esteja visitando um cassino bem exótico:

e, de repente, em suas andanças, você se defronta com duas portas:

É óbvio que, em um raciocínio imediatista, sua escolha iria para a
porta 2: há uma chance quase 6 vezes menor de perder e o ganho, então,
é fantástico, 1000 vezes maior que a aposta!
Abrindo as portas, porém, você tem a explicação da enorme discrepância
entre as duas roletas.
Na roleta 1 você tem uma comum roleta de cassino:

Você aposta seus $100 em um número e sua chance de perder é de 35 em 36
(em alguns cassinos de 37 em 38 por que têm o 0 e o 00), ou seja
35/36 = 0,9722222 = 97,2% (97,4% nas roletas que tem o zero e o
duplo zero). Se ganhar você recebe 36 vezes o valor da aposta.
Na roleta 2, por outro lado, você se defronta com uma roleta russa:

O tambor do revólver tem 6 posições e uma única bala:
A arma é carregada:

O croupier roda o tambor e a chance de ter, na hora do disparo em sua
cabeça, a bala na agulha é de apenas 1 em 6, ou seja 1/6
= 0,16666 = 16,6%.

Você apostaria?
É óbvio que o que eu quero enfatizar é a enorme importância do que você
perde, se perder.
Quando se constrói uma central nuclear, uma vez amortizado o valor do
investimento (incluindo as propinas) passa-se a ter energia a um custo
baixíssimo.
É
um ganho fantástico.
E
o risco de perder? Qual é o risco de algo dar errado?
Segundo
os experts do ramo, quase zero.
QUASE!
Esse
é o pomto. Não é zero, é QUASE zero.
O
que interessa não é a probabilidade baixa de se perder. O
problema é o altíssimo valor do que vai se perder se a
fatalidade acontecer.
Será
que a experiência do que aconteceu nos EUA, na Rússia e,
agora, no Japão, não é suficiente para que esses
idiotas percebam que a magnitude de um desatre nuclear não
compensa os ganhos que podemos ter usando esse tipo de energia?
Será
que a ganância de ganhar as propinas vindas de
"licitações" estranhas supera o horror do que um desatre
nuclear pode causar?

Será?